segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Nem o multiculturalismo liberal e nem o marxismo ortodoxo: o retorno dos (novos) velhos idealismos
Na seara (que eu considero) mais avançada do conjunto da sociedade tem duas coisas que  têm me incomodado muito ultimamente e que, tomando a liberdade da leitura da filósofa Linda Alcoff, chamo de o retorno dos  idealismos. Uma delas é o sempre diletante e apaixonante marxismo ortodoxo, corrente que sigo por inspiração ideológica e partidária, mas não pragmática. A outra é o voluptuoso multiculturalismo liberal. Quero falar um pouco de cada um deles neste texto, sem ser didático.






O marxismo ortodoxo, para mim, é o que mantém algumas pessoas preocupadas com as recentes mudanças da humanidade e, para contraponto muito inexato, tais pessoas se põem a organizar suas ideias sobre um país plenamente colonizado, com uma escravidão de mais de 3 séculos e sem modernização plena através da industrialização e do desenvolvimento dos setores produtivos como o Brasil como se estivessem na Europa dos oitocentos. Uma conta que não fecha. Classe social no Brasil não é o mesmo que classe social no horizonte europeu do século XIX e, ou fazemos essa análise, ou inclusive não conseguiremos sequer dialogar com as mais diversas formas de classe social que existem pós-neoliberalismo, com a aquiescência das classes sociais ligadas ao comércio e setor de serviços (e não à indústria), com continuidade aqui em terras brasileiras da exploração do trabalho precário pelo agronegócio, e com uma maioria de trabalhadoras mulheres, negras, subproletárias ligadas ao trabalho doméstico, rural, servil e sem identidade caracterizada clara de identidade de classe social. Ou a gente discute isso, que é urgente, ou a gente nem pode passar para o próximo ponto, que é criticar os pós-modernos. 


Eu não me arvoraria a jogar a primeira pedra nos chamados ~pós-modernos~ se eu pensasse que nos últimos 30 anos poucos foram os marxistas que se puseram, mesmo sob as mais violentas críticas, atualizar teoria e método, inclusive criticar os próprios conceitos e noções exploradas pelo próprio Marx em seus textos. Gente como Žižek ou Boaventura de Sousa Santos, ainda que com pontos discordantes, logram a mesma atenção renegada que foi dada aos ex-comunistas europeus que, ao saírem dos partidos comunistas, tiveram por vezes uma obra inteira ignorada pela própria inteligência dos movimentos de esquerda ocidentais. Não caiamos nesse erro. Há muita coisa que se produzir, e por nós mesmos, mas não sem leitura ampla.  

Por outro lado, o multiculturalismo liberal vem tomando a cena, ora sob aplausos e ora sob as pedradas da própria academia neopositivista que o abraçou há décadas. E, como um caso de amor mal resolvido, não foram os marxistas que botaram fim no relacionamento, mas a inexequibilidade desse relacionamento deslumbrado. Chegou um tempo que já não era amor, era cilada. Fortemente amparado aqui e acolá pelas teorias fabulosas do ex-marxistas leninistas europeus sobre o mundo (sempre com um tom de otimismo com a globalização que faria qualquer um índio se preocupar), o movimento estudantil francês da década de 60, o feminismo de 70 e os novos movimentos sociais se puseram a organizar uma historiografia da identidade muitas vezes organizando uma geografia que tratava de analisar descentramentos de poder (supostamente influenciados por Foucault) sem verificar que nenhum suposto descentramento haveria sem outro centramento de poder no lugar. Era a fome do queijo na hora errada. Não deu. O que seguiu esse fenômeno (e não o estou culpando de todo, mas elogiando a capacidade de reconstrução do capitalismo) foi a reorganização do capitalismo em nível global, rumo à desorganização do mundo do trabalho, enfraquecimento das representações políticas de classe, estabelecimento de identidades coletivas como raça, gênero e sexualidade como identidades do indivíduo, estabelecimento da concorrência no lugar da cooperação e da solidariedade, encolhimento do espaço público e neocolonização tanto na África quanto nas Américas, marcha rumo ao Oriente Médio e unipolarização de um mundo já unilateral. Não quero me precipitar, mas como lembra Bonny Norton, é preciso desconfiar do desaparecimento de classe social num mundo onde identidades individuais são cooptadas na busca pela fragmentação do sujeito. 

O multiculturalismo liberal é a filosofia triunfante do neoliberalismo. A própria nova esquerda o cunhou no bolso, o embalou no colo e o quer agora no cemitério. Mas ele não é qualquer um. A União Europeia, em frangalhos, busca impor regras de imigração, logo eles que não têm moral nenhuma nem para ditar um parágrafo sobre o assunto (vide os White papers e os raibow papers). Os Estados Unidos fazem um debate presidencial com 60% de discussão sobre o território alheio. Mesmo que a moral falte, o multiculturalismo liberal reina como ideologia triunfante enquanto os marxistas ainda se perdem na análise do século XIX. É preciso mais. 

O pior – e considero pior mesmo – é a confusão de classificação, conceituação que setores esquerda fazem sobre essa bagunça histórica que vivemos, ao ponto de entender tudo aquilo que não é classe social como ~pós-moderno~. Não vou nem precisar de nota de texto para dizer que não acredito na pós-modernidade pelo simples motivo de que a própria modernidade, não sei se aos moldes de Bruno Latour, é uma grande meta narrativa sobre si. A pós-modernidade então nem se fala. Se o multiculturalismo é a filosofia triunfante do neoliberalismo, a pós-modernidade é a teoria cultural e histórica. É como a imposição ocidental do discurso sobre as práticas, mas essa discussão toda eu deixo para outro papo. 

Raça, gênero e sexualidade não são e não poderiam ser teorias ~pós-modernas~. Há séculos tem gente falando sobre isso. Platão, no famoso livro O Banquete explora até mitos sobre a sexualidade pouco ou nem explorados por nós. Se nós não queremos armar o "inimigo" ~pós-moderno~, então seria conveniente não entregar narrativas que não foram criadas por eles. Seria até desonesto. Isso porque quem narra a pós-modernidade, apenas tenta contar como 60 e 70 vão mudar a humanidade para sempre, mas 60 e 70 não dependem dessa narrativa, mas de seus contextos europeus e diletantes. Em 60 havia uma crítica radical (quase anárquica) a tudo que de fato fortaleceu o capitalismo, mas não fez a esquerda de sempre pensar, e daí a derrocada. O movimento estudantil daquela época gerou o ovo da serpente, mas também o soro antiofídico que ainda não usamos.  O feminismo questionou também, aqui e acolá, os líderes homens que não souberam lidar com essa crítica. Mas se jogamos com a ideia de que esses movimentos foram totalmente protagonizados pelos ~pós-modernos~, então a gente cai no buraco do anacronismo de achar que quem hegemoniza a narrativa é quem faz a história, e não entende que quem hegemoniza a narrativa é quem detém a história, que é sempre disputável. Este é o nosso momento maior. 

A questão racial, da qual eu talvez consiga falar mais, está além dessas análises europeias, é fortemente negligenciada nessa crítica. Mesmo, sem nenhuma novidade, pelos pós-modernos. A questão racial, sendo filha bastarda dessa narrativa, tem um Brasil que se divide entre o mito da democracia racial do brasileiro cordial, mitos igualmente racistas, e promove racismo sazonal e de cor extremo pela própria esquerda centrada e elitizada (que não perde nenhum ponto de sua luta política contra o autoritarismo por isso), que não consegue lidar com a questão racial. O preto no Brasil é a terceira pessoa de Benveniste, para quem essa nem é pessoa porque, ao ser narrada, não é "eu" e nem "você", e, portanto, não é quem fala e nem com quem se fala, mas de quem se fala. Enquanto o negro for tratado como o outro por um país onde o preto existe ipsis literis, mas não é ouvido, a gente vai estar negligenciando o preto e usando teorias secularistas ocidentais do norte. 

Se os decoloniais latino-americanistas têm razão ou não, o que importa mesmo é que várias epistemologias podem surgir deste bate papo. Uma delas é que eu não estou desperdiçando nenhum pensamento, mas como sou marxista e tenho foco na luta política, também não me perco nas análises sobre quem sou numa América Latina ainda desigual e colonizada. Os racismos aqui estão mantidos pelo racismo epistêmico e institucional, e a gente reproduz sempre que acha que a estética prevalece sobre a ética (e não estou usando a conceituação mais aprimorada de Rancière). 

A questão maior que vejo dessa luta política toda é que ela não sai do conceito, e esse é um problema central se a gente estiver falando, ou quiser falar, sobre revolução. Venhamos e convenhamos, uma revolução não se faz de conceitos apenas (e olha que sou linguista, e olha que como leninista eu deveria entender que para uma prática revolucionária é preciso uma teoria revolucionária). Acontece é que teoria não se faz só de conceitos, e as teorias de nosso tempo cada vez mais invertem a lógica binária indutiva e dedutiva, local e global, para se tornar um elo maior entre a luta revolucionária e as ideias revolucionárias, o que eu quero chamar aqui   por não ter nome mais adequado   de pragmática. Ora, se a teoria é outra, a luta política precisa sair dos meandros tradicionais do conceito (do que é "pós-moderno" ou do que é mais avançado) para construir paradigmas mais claros, para dar confiança ao nosso povo. 

O conceito é um perigo. Por ser uma convenção, passa a convencionar as práticas de forma unilateralizante e isso dificulta a visão. Talvez a noção derridiana sirva melhor que conceito, mas até ela se torna normativa como conceito quando executada com uma ~certa~ fidelidade acadêmica. Uma das coisas que o mestre genebrino Ferdinand Saussure não disse ao todo é que o conceito não somente ajuda a classificar o mundo, a partir do sistema de signos, mas também ditar unilateralmente a visão sobre o mundo. Esse é o problema desse tribunal de conceituações. 

Aqui, e agora sim por opção didática, chamo esse fenômeno da volta dos (novos) idealismos. Tenho tido muita preocupação sobre esse fenômeno e estou preparando um texto mais denso. Os novos idealismos são representacionais em uma estrutura muito distinta do que Hegel cumpriu, e chamo o Estruturalismo e Pós-estruturalismo de pilares fundamentais para isso. Até o santo Althusser, marxista como tantos acendem a vela, não sobraria nesse contexto do retorno.  

Os idealismos voltam com uma máxima muito preocupante de sempre, que Marx criticava em seus textos finais: a preocupação com a descrição e, logo, com o conceito. Na minha dissertação de mestrado (Veja aqui) eu lembrava (partindo de David Block e Pierre Bourdieu) que o próprio Marx não chegou a conceituar classes sociais propriamente (coisa que me aventurei a fazer e queiram me perdoar). Os idealismos voltam também com essa preocupação fundamental, e também estão presentes nos coletivos sociais e universitários que têm discursos acirrados de puro essencialismo, com questões de raça pela raça, de gênero pelo gênero, e de classe pela classe. Tenhamos muito cuidado.  

Um outro aspecto ampara o retorno dos idealismos, e dia desses foi Talal Asad, em um texto seminal a mim indicado por Dr. Lynn Mário, meu orientador, que me abriu os olhos, são os securalismos ocidentais. Os direitos humanos, agora cooptados pelo multiculturalismo liberal, fazem parte desse rumo perigoso com que estamos lidando. O securalismo transforma a palavra ocidental, o conceito, em regra de pensamento, em norma abstrata, negando a performance com que tratava Butler em suas análises foucaultianas, ou com a ausência com contextualismo da preocupação de Linda Alcoff. Como tudo pode se secularizar nesse jogo, é preciso pensar melhor como os novos idealismos já chegam secularizados às nossas cabeças. 

Este texto, no entanto, não é um desabafo, mas um primeiro do conjunto de textos que pretendo escrever sobre o assunto.   

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1 comentários:

Unknown disse...

Parabéns pela reflexão, Gabriel. Você sempre me surpreende!

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"A raça é um signo duplo, cujo significante aponta para dois significados: opressão e resistência"

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